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george cardoso

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Quinta-feira, Março 30, 2006 _____




É verdade. É a pedida do dia 1º de abril. Sábado, às 21 horas, tem o espetáculo solo Tchouraï, da senhora bailarina e coreógrafa Germaine Acogny, conterrânea d meu bróder senegalês Ibrahima Gaye, q se apresenta dentro da programação do 3º Festival de Arte Negra (FAN) de Beagá. Fique ligado, pois a partir das 20 horas serão distribuídos os ingressos no Teatro Sesiminas (rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia, BH). Pois é: atração internacional e gratuita. Cê vai perder essa?

riscado por GEORGE CARDOSO | 6:59 PM


Sexta-feira, Março 24, 2006 _____


Peço licença aos visitantes do terreiro pra esticar o papo e o texto, não menos interessantes. Tratam-se duns fragmentos duma descoberta na feira do Salão do Livro de BH do ano passado: o livro "Corações Futuristas - notas sobre Música Popular Brasileira", edição portuguesa de 1978 (ano d minha erupção nesta espaçonavelôca), dum ensaísta português, q parece (ou parecia, não sei se o cara é vivo e não visitei o google) ser meio abilolado, mas q escreve com olhar curioso e admirado dum colonizado pela cultura brasileira. Processo inverso da história? Pode ser... Na cultura. James Anhanguera, o cara, transcende os limites da resenha musical e traça no livro análises d recortes de nossa (anti)história e produção cultural, tal como tá nos fragmentos do capítulo q reproduzo aqui, em q'ele contempla - e antes contextualiza - o discurso d Jorge Ben - q muito pode ser chamado "engajado", já q a palavra é também ferramenta e arma pruma guerrilha ideológica - na música "Zumbi".

É interessante saber da ótica dum intelectual europeu sobre nossas relações raciais - sobretudo a auto-crítica -, principalmente no momento em q as cúpulas do poder político medem esforços pr'uma reparação na história brasileira com a criação duma lei federal [nº 10.639/2003] q obriga o ensino da cultura e história africana e afro-brasileira nas escolas, uma tentativa duma busca de identidade cultural dum povo. Pode ser um passo à frente. Mas, como cantou Maria da Graça, "é preciso estar atento", pois a beleza do jardim pode estar adiante, semeada das mãos d'outro Zumbi.


Flores da Fala 2: Zumbi, Senhor das Demandas

Kelinde Willey/reprodução


"Venho de Três Raças Muito Tristes"

[James Anhanguera]

Tratar com precisão a questão das origens da música brasileira é um problema complexo, q começa na própria falta de identidade da imensa nação relativamente a uma cultura específica. Desde o século XVI, quando os portugueses ocuparam administrativamente certas partes do litoral do território indígena da futura América do Sul e principiaram a sua colonização - com o objetivo quase exclusivo d transar matérias-primas e especiarias com outros países do Velho Continente - ali arribaram povos das mais diversas partes do mundo: holandeses, franceses, ingleses, africanos d vários pontos do outro continente: um diversificado mosaico humano q foi encontrar nestas novas terras várias nações d índios tupi-guaranis. [...] Uma terra virgem, selvagem, q encerrava nas suas matas invioladas segredos d milênios d anti-História ainda hoje desconhecidos do homem branco.[...]

... perante a incapacidade [?] dos aborígenes [índios] para um trabalho organizado segundo o seu sistema - à força do chicote -, teve d ir buscar à África também recém descoberta os negros q, fora do seu "habitad", dispersos em grupos onde se misturavam várias etnias, eram obrigados a arrancar e carregar as riquezas dos seus novos donos.

Mesmo ainda no período mais primitivo da escravidão, o negro levado para o Brasil da costa setentrional africana - República do Congo, Cabindanina, Angola, Benguela -, portato num meio d certo modo idêntico ao seu, desde logo soube resistir e lutar contra os seus exploradores d uma forma d certo modo parecida com a d algunas escravos emigrados para os Estados Unidos, chegando a fugir da dominação branca e a defender-se em aldeamentos ou "nações" a q chamaram "quilombos" como o de Palmares [...] em q sobressaiu a mitológica figura do guerreiro Zumbi, q inspirou Gianfrancesco Guarnieri na peça "Arena Canta Zumbi", encenada logo a seguir à subida dos militares ao poder em 1964, por Augusto Boal para o Teatro Arena, d São Paulo, com música de Edu Lobo.

A figura do bravo Zumbi, q comandou a última fase da resistência dos negros d Palmares contra os exércitos dos colonizadores portugueses, foi também lembrada por Jorge Ben numa música em q ele fala da sua terra d origem, África, dos diferentes reinos africanos q os negros tiveram d abandonar e um pouco também do seu "modus vivendi" depois q foram reduzidos, nesse continente do outro lado do mar, à condição d escravos dos brancos exploradores, e resistiam

Zumbi
[Jorge Ben]

angola, congo, benguela
monjolo, cabindanina, kilôa
rebôlo
aqui onde estão os homens
há um grande leilão
dizem q nele há uma princesa
à venda
q veio junto com seus súditos
acorrentados num carro d boi
eu quero ver, eu quero ver
aqui onde estão os homens
d um lado cana-d-açucar
do outro lado cafezal
ao centro senhores
sentados
vendo a colheita do algodão branco
sendo colhido por mãos negras
eu quero ver, eu quero ver
quando zumbi chegar
o q vai acontecer
zumbi é senhor das guerras
é senhor das demandas
quando zumbi chega
é zumbi
é quem manda


[In Corações Futuristas - notas sobre Música Popular Brasileira, A Regra do Jogo Edições, Portugal, 1978]

riscado por GEORGE CARDOSO | 10:33 AM


Quarta-feira, Março 22, 2006 _____


Musicalidade d Minas...



Quem nunca viu, vale a pena conhecer o trabalho d Anthonio. Esta é uma rapidinha: show acústico do camará hoje no aconchegante Reciclo Cultural (av. do Contorno, 10.564, Barro Preto, BH), a partir das 22 horas. Além d possuir uma bela voz, Anthonio me parece ser um artista um tanto inquieto, q nos últimos anos tem mostrado em seus trabalhos fusões inteligentes da polpa sonora da rotulada MPB com a música eletrônica e a tradição da Costa do Congo q se fez essa África Gerais além-mar.
É, precisarei um dia falar melhor de Anthonio, com tempo. Agora, fica aqui a pedida d hoje.

riscado por GEORGE CARDOSO | 8:39 AM


Terça-feira, Março 21, 2006 _____


Imagem raptada do Sabor Graxa


[-] Gunga chama, toque Iuna; é jogo d mestre, camará. Hoje, na maré d Kalunga, eruptará às 20 horas, no Centro Cultural da UFMG (av. Santos Dumont, 174, centro, BH), a revista RODA: Arte e Cultura do Atlântico Negro, q tem como puxador das "ladainhas" (literárias, poéticas, plásticas, visuais and more) o obá Ricardo Aleixo. Olhe q fiquei sabendo q tem muita gente de boa ginga neste 1º número: Léopold Sédar Senghor, Muniz Sodré, Wir Caetano, Antônio Sérgio Moreira, Edimilson de Almeida Pereira, Leo Gonçalves... - os q até agora sei. Confesso q estou ansioso pra ver a o jogo do rebento, q é mais uma ação do Festival de Arte Negra de BH (FAN).

Mas tem outro barato. O lançamento acontece durante o Saravá de Celebração do Dia Mundial da Poesia e do Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial. Como lembra o Jaguadarte: "a palavra 'Saravá', extraída do léxico afro-brasileiro, tem o significado de 'salvar' e, no contexto do evento, representa ainda um trocadilho com o termo 'sarau'". E nesta volta q o mundo dá terá apresentações do músico e ator Maurício Tizumba, os poetas Renato Negrão e Mônica de Aquino, o grupo Poesia Hoje, o ator e poeta Benjamin Abras, o bailarino (e também curador do FAN) Rui Moreira, e outras possíveis surpresas. Como já disse, é jogo de mestre, é aluandê. Espere pra ver.{+}

riscado por GEORGE CARDOSO | 9:28 AM


Domingo, Março 19, 2006 _____


Mais um da série criada em formas aleixianas...

Cacetinho 2: m'Iansã

Pra Kel, Oiá pra mim


tr
oveja
lá f
ora
aq
ui bem d
entro
cho
ve
affaire
se
co cega
o o
lh
o o
ra
io-mul
her

B

riscado por GEORGE CARDOSO | 2:30 PM


Quinta-feira, Março 16, 2006 _____


Kizomba da Palavra, Sons, Imagens e Movimentos

Foto: Netun Lima
afoxé d HOJE é por conta do Combo de Artes Afins Bananeira-Ciência, um grupo multimídia liderado pelo poeta, músico e ensaísta Ricardo Aleixo (foto) - obá do terreiro Jaguadarte -, e q é formado também por Chico de Paula (laptop, objetos sonoros e visuais, voz, textos), VJ Tatu Guerra (laptop, didjridoo, percussão e projeções), DJ Rato (turntables e dança) e Paulo Thomaz (violino, engenhocas eletrônicas e acústicas e voz).
O espetáculo ELIMINADOR DE RUÍDOS será apresentado às 17h30, no projeto QUINTAS POÉTICAS, na Escola Guignard (av. Ascânio Burlamarque, 540, Mangabeiras, BH). Custo zero. Isso mesmo: entrada franca. Dá pra perder? Se ligue!B



riscado por GEORGE CARDOSO | 9:50 AM


Terça-feira, Março 14, 2006 _____


No dia da Poesia, uma nova seção neste terreiro...

Cacetinho 1: no Co[r]ti... dia...

Para os poet'amigos Léo Gonçalves e Renato Negrão, do conselho poético



rec
olho
so
bras d
os
min
utos d
a manhã
pra [de]
com
por ao
me
io-dia

B

riscado por GEORGE CARDOSO | 10:32 AM


Domingo, Março 12, 2006 _____


Quando calhar, postarei neste terreiro fragmentos d textos q aprecio e, de preferência, q tratem da relação literatura (no contexto abrangente) X etnicidade, como FLORES DA FALA. Pro ponta-pé inicial, lanço um recorte textual do antropólogo, poeta e ensaísta da Cidade da Bahia, Antonio Risério, q é o criador da expressão q dá nome à seção.

Flores da Fala 1: Poética Suiá

"Contrariando a tribo dos antropólogos, os [índios] suiás escolheram, para efeitos de comparação intergrupal, os ornamentos e o canto. Os discos coloridos usados nas orelhas e nos lábios apontam para a relevância que esses índios dão ao ouvir e ao falar, como faculdades sociais por excelência. O ouvido recebe e retém os códigos tribais. E, para além do silêncio, também socialmente importante, há duas espécies de fala: o sermo quotidianus e a oratória, plaza speech, que é o discurso masculino na praça da aldeia, com seu ritmo especial, seu estilo recitativo, seu conjunto de fórmulas. (...) Mas o ponto culminante da oralidade suiá, individual e coletivamente, está no canto. Na palavra-canto. E que se frise o fato de que a música suiá não envolve instrumentos musicais. É exclusivamente vocal. A palavra desenha plena o seu espaço. Palavra pairando solitária na antemanhã, ou estridulando na cacofonia das canções que atravessam a noite. Mas há mais (...) os suiás não têm deuses nem mito de criação - e ignoram seus ancestrais (fabricam uma fascinante espécie de história espacial, onde as peripécias tribais são marcadas pelos lugares em que ocorreram e não pelos heróis que dela participaram). Não tenho notícia de nada igual em qualquer outra parte do mundo. E assim somos conduzidos à estranha e inesperada conclusão de que pode haver um povo sem deuses, mas não um povo sem poesia." [in Oriki Orixá, Editora Perspectiva, 1996]B

riscado por GEORGE CARDOSO | 5:55 PM


Quarta-feira, Março 08, 2006 _____


Certo dia, numa dessas muitas encruzilhadas topei com o poeta-exu-felino Ricardo Aleixo. Conversamos pelo caminho sobre o surgimento desta cidade alterosa d'estranhezas e o fato curioso da destruição da velha Canudos do Conselheiro ter ocorrido no mesmo ano da criação da nova capital de Minas: 1897. Segundo o camará, a "Mancha da República" foi substituída pelo "Orgulho da República". D tão impressionado q fiquei com o insight histórico do Rique, inspirei-me para escrever uma croniqueta autobiográfica para o especial "Estranho em Terra Estranha" q publiquei em 2004 no extinto site literário "Patife, HQ sem Q". Olhos abaixo!

Delírios em BeloriM

"Chegavam os estrangeiros e em pouco eram ilheenses, dos melhores, verdadeiros grapiúnas" (Jorge Amado)

Goca Moreno/Reprodução
Será q aquele umbigo ainda está lá# Sei q o velho o enterrou na porteira da fazenda À beira da estrada Com todo cuidadO Se ele esqueceu de botar esterco Não seiIII Fede Mas serve bem à terra adubada há anos com tantos cadáveres e sanguE Talvez por isso às vezes reconheço em andanças-matuteiras a cidade d'onde vim onde estoU Será# Já me disseram q em Belorim Belo Horizonte todas pessoas são estranhaS Mas o q deve ser mais estranho mesmo é desconhecer a célula-mater-terra A origeM Onde quer q'eu vá a Capitania está comigo 470 anos de história perambulam minha cabeça A hecatombe tupinambá em CururupE A salacidade e soberba dos coronéis As tocaiasSSS

Um falso cheiro me faz vislumbrar a travessia no caminho do porto velho Homens carregando arrobas e mais arrobas de sementes do fruto d'ouro para caminhões q abastecerão navios para a EuropA E é lá q o cacau vira puro chocolatE Quando me pego estou sendo atocaiado na confusão do hipercentro da Cidade Alterosa Pisando em merda da cavalaria montada da PM Desviando d vendedores ambulantes Pivetes Mendigos e esmoleres D toda miséria q me cercA

E não há um só dia q Ilhéus não faça essa visit'aguça ao meu pensamento Abilola o sentimento e me faz perder a sensateZ Não sei quantas vezes a imaginação percorreu os mesmos caminhos e lembrançaS O tabuleiro da baiana Maria na calçada da velha padaria da avenida Itabuna O cacaueiro do quintal d Dona Alaíde defronte o grupo escolar Os moleques q vendem geladinho d tapioca O caruru dos meninos A puxada do mastro d São Sebastião A Mãe-mítica [odoyá$] jogando seus cabelos sobre meu corpo deitado na areia em noite de lua cheiaAAA Tudo é banzo Como sentiam os antigos negros d'ÁfricA Talvez seja até maldição FeitiçO Pode seRRR

Foste fundada como São Jorge dos Ilhéus Doação do rei d Portugal em amizade a Jorge Figueiredo Correia Q lá nunca chegou a pisar os pés Mas batizara a cidade com o nome do santo xarÁ O donatário julgou a terra primitiva e a recebeu com desprezO Daí Talvez A maldição Um sentimento q aprisiona d'alguma forma os grapiúnas q nascem na grande cidade do sul da BahiA

Eu sei e a jindiba de Adonias sabe também q lá os dias passam lerdoS Horas de relógiO Uma brisa Um frescor de felicidade q perdI Sinto falta d ver a cortina de fumaça q sobe céu à riba depois da chuva lavar os paralelepípedos quenteS É cacau em alta na certa$ Como acreditaM Tão grande é a esperança dos ilheenses q hoje a vassoura de bruxa foi derrotada As lavouras d cacau ressurgiram graças às pesquisas genéticaS

Aqui é diferente A inquietude rege as horas e minutos de agonia aceleradA Tenho de me preparar para vencer essa batalha todos os dias// ser o baiano grapiúna q soU Roubo a lança de São Jorge para digladiar com os meus dragõeS A luta é cansativa e dolorosA A múltipla instantaneidade da capital me apavorA E a dificuldade começa ao tentar compreender o q foge ao perímetro da ContornO Sem esperança e planejamentos É o crescimento absurdo do orgulho da RepúblicA É Acabaram com Belo Monte Mas fundaram Belo HorizontE 1897 Ano em q os canhões Krupp tiraram a fortaleza do Conselheiro do mapA Depois construíram a nova metrópole d'esquisitices entre as serraS PebAAA

No meio d tanta história absurda Volto ao meu umbigo e vejo q minha peleja ainda não acaboU Agora Só sei q não sou daquIB

riscado por GEORGE CARDOSO | 1:24 AM


Segunda-feira, Março 06, 2006 _____


A Cultura Acaba...

Beto Magalhães/Estado de Minas
O Amor Acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. [Paulo Mendes Campos]

E, por falta d'amor, um pouco mais acabada amanhece a cultura de Belo Horizonte... Uma das quatro estátuas do monumento "Encontro Marcado" - os 4 cavaleiros do apocalipse: Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino - foi derrubada por ato de vandalismo na madrugada. A escolhida foi justamente a do jornalista, poeta e cronista P. M. C., autor da crônica acima e do livro "Os Bares Morrem Numa Quarta-feira", entre outros. Quanto vale a cultura duma cidade? Quanto vale a cultura dum país? Sobre isso, acho q vale refletir com o nego dito Itamar Assumpção: "Pobre cultura como pode se segura mesmo assim mais um pouquinho e seu nome será amargura ruptura sepultura também pudera coitada representada como se fosse piada Deus meu por cada figura sem compostura".
Quer saber mais sobre este (des)caso? Leia a edição d hoje do "Estado de Minas".
B

riscado por GEORGE CARDOSO | 8:17 AM


Sexta-feira, Março 03, 2006 _____


Ê, Afoxé-aluandê, Camará!

Pierre "Fatumbi" Verger/divulgação
Navegando em maré d dias tristes, reme(more)i hoje doces saudades (e uma q a moça sabe!). Mas outra, especialmente, foi ao zap-clicar nos links ao lado e parar no Neguinho Negona d meu bróder Wir Caetano. O que muita gente não sabe é q o bróder é o principal responsável por'eu ter d certa maneira espiado a porta do métier literário, quando em 2003 resolvemos criar o primeiro blog literário coletivo q obteve repercussão em Belô, o Armengue Press, q contava ainda com o poeta e letrista Renato Negrão na capitania.

Wir pode se passar por um desses mineiros típicos, só q possui fascinante erudição como poucos sobre assuntos os mais diversos. De espírito cosmopolita, tem o umbigo enterrado no aço da João Monlevade e a cuca antenada, um melting pot pens'ambulante. Dono duma literatura adoxográfica com marginália peculiar, fertilizou o inclassificável livro ''Morte Porca'' (Selo Zero Edições, 2002) - José Castelo, da Revista Bravo, q o diga!

Feita a apresentação do amigo, trago como pretexto desta prosa a retribuição duma menção feita por ele à minha pessoa em coluna q'ele assina no jornal ''Diário de Itabira'' - o Wir não diz, mas acredito q'ele percorreu novos caminhos quando esteve por uns tempos na terra do poeta que não banava o braço e, novamente, às voltas em sua Monlevade. Ah, sim! E o grande barato do texto do camará, q reproduzo logo abaixo, é explicar com primazia o significado e sentido das duas palavras yorubanas q intitulam esta minha posse, em meio ainda a um excerto meu publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, após jogado na blogosfera:

'''Afoxé-Aluandê' é o nome de um blogue de um amigo meu, George Cardoso, baiano de São Jorge de Ilhéus (fundada em 1534 pelo espanhol Francisco Romero, lugar-tenente do donatário Jorge de Figueiredo). Essas palavras têm muito a dizer. Sobre o significado de 'afoxé' há controvérsias, mas o antropólogo e compositor Antonio Risério, primo do George, no livro 'Carnaval Ijexá', considera bem fundamentada a explicação de que o termo, do universo lingüístico iorubá, significa 'palavra que faz acontecer'. Quanto a 'aluandê', a explicação que tenho veio da boca de Muniz Sodré - recentemente empossado como presidente da Biblioteca Nacional, salve, salve, negritude! -, através do bróder da Bahia. O bróder escreveu assim, quando inauguramos um blogue chamado 'Armengue Press', desativado há tempos:

'Esse tempo do improviso foi chamado pelos antigos negros da Bahia de 'aluandê', que, no caso da mandinga da capoeira, faz com que a pessoa inverta uma situação: aquele dado por vencido pode sagrar-se vencedor. Mas esse 'tempo' não é o mesmo tempo do relógio; é também o que os gregos chamam de tempo kariótico, do mito, da improvisação e, até, do amor - ahá!.'

É isto: essa fração de tempo que pode virar o jogo. Iorubá, iorubá. (...)Por mais cansados que estivermos, dá, sempre, para emitir pelo menos um suspiro, essa forma embrionária da palavra que - quem sabe? - pode fazer acontecer. O afoxé nosso de cada dia, nesse pedaço de Minas''.B

riscado por GEORGE CARDOSO | 10:32 PM


Quarta-feira, Março 01, 2006 _____


Labirinto Glauberiano

Tempo Glauber/divulgação


Após uma labuta retada, encontrei uma locadora porreta em Belouriço e lá catei na prateleira o filme q pode ser considerado a obra prima do cineasta Silvio Tendler. Sim, loquei "Glauber o filme - Labirinto do Brasil", q depois de mais de 20 anos dona Lúcia Rocha, mãe do homenageado, autorizou o diretor a veicular as imagens do velório e enterro do grande e revolucionário cineasta baiano. O documentário, q tem o belo subtítulo "Para que ninguém esqueça a falta que ele nos faz", possui uma edição d fino trato, com depoimentos d pessoas q conviveram com o diretor de "Terra em Transe" entre outros, como o também saudoso Darcy Ribeiro (q discursou sobre o túmulo do artista), o escritor João Ubaldo Ribeiro, Carlos Diegues e tal colados em imagens e entrevistas do próprio Glauber durante alguns dos muitos festivais d kinema em q foi premiado. Um lance curioso é o enigma da morte do Dragão aos 42 anos, uma desconfiada profecia cumprida q'ele próprio revelava em voz alta aos amigos... Ó, q coisa!?
But o filme é, sem dúvida, o registro da memória dum dos mais revolucionários e políticos pensadores da arte d nossa cloaca Terra Brasilis. Dito e indicado, é isso!

*****

O texto abaixo, "O Manisfesto do Catarro", foi o último deixado pelo cineasta baiano Glauber Rocha. Escrito na cama do hospital em Lisboa, em intervalos d pseudo-consciência, como tudo vindo de Glauber, era um urro alucinado, um grito final d'alguém q apesar d fervilhante d vida, pereceu pela carne e imortalizou no espírito. Com muito respeito ao baiano d Vitória da Conquista, transcrevo parte deste manifesto, q fora editado em 28 de Agosto do ano d sua morte, na revista "Careta", e enviado nominalmente ao editor Tarso de Castro, como consta no livro "Cartas ao Mundo" (Cia das Letras), organizado por Ivana Bentes. Aí vai:


Glauber, Manisfesto -------------> CATARRO
" Kareta" libertação" Cahieur du Cinema" e etcs -------> Acabaram o velho jornalismo
---> o foto jornalismo----> Novela Jornalística ---> Tudo que começou em 1900 desaparece em 1981.
Ai vai, caro Tarzo, uma reportagem NOVA sôbre minha Pneumonia,TuberKuloze e Kanzer. Mas Kanzer não MATA.
Kareta, com Raul Cortez na capa é genial, e devemos seguir por aí....Publique ao mundo meu diagnóstico FELIZ!!

GLAUBER


Reprodução


Ficha Técnica:
Título Original: Glauber o Filme - Labirinto do Brasil
Gênero: Documentário
Tempo de Duração: 98 mim
Ano de Lançamento (Brasil): 2004
Distribuição: Riofilme
Direção: Silvio Tendler
Assistência de Direção: Silvio Arnaut
Roteiro: Silvio Tendler
Consultoria de Roteiro: Orlando Senna
Produção: Caliban Produções Cinematográficas
Produção executiva: Silvio Tendler
Fotografia: Fernando Duarte e Walter Carvalho
Som: Cristiano Maciel
Direção Musical: Eduardo Camenietzki
Interpretação: Ithamara Koorax
Trilha adicional: Caíque Botkay
Edição de Imagens: Silvio Arnaut
Montagem: Silvio Tendler

riscado por GEORGE CARDOSO | 8:04 PM

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